Quando o Grupo Pão de Açúcar lançou sua promoção de aniversário, que consistia em escrever uma frase que, se fosse a escolhida, daria direito a um jantar com Olivier Anquier e Seu Jorge, tratei logo de ir às compras e garantir minha participação. Afinal, culinária e música são duas das minhas paixões. Era um sábado de agosto de 2008 quando peguei meu cupom no caixa do supermercado e, em casa, entre vinhos e queijos, escrevi minha frase, respondendo a pergunta: “O que faz você feliz?”.

O tal cupom ficou na minha bolsa por alguns dias, até que me lembrei dele quase saindo do supermercado novamente, quando eu precisava encontrar uma urna para depositá-lo. Vasculhei o lugar com os olhos e não achei. Foi então que vi uma moça vestida com o que parecia ser um uniforme e lhe perguntei sobre a urna. “Aqui ao meu lado, boa sorte!”, ela me respondeu, muito simpática. Pra disfarçar minha cegueira galopante, falei pra ela que seria a ganhadora e que lhe daria um dos prêmios. Ela sorriu e me devolveu a brincadeira:

— Se a senhora ganhar, vai me convidar para o seu jantar!

Combinadíssimo! Ora, como não?! Perguntei o nome dela, nos despedimos e eu só voltei a lembrar da promoção dias depois, quando C., carregada de sacolas do supermercado, chegou em casa sem mais cupons. Reclamei que assim não teríamos como ganhar o tal jantar e esquecemos do assunto até meados de setembro, quando Fernanda, se dizendo do Grupo Pão de Açúcar, me ligou de São Paulo, contando que eu era a ganhadora do Rio de Janeiro.

Claro que eu pensei que era pegadinha. Tá boa, santa? Ela enumerava a quantidade de louças, panelas e cristais que eu receberia em casa dali a alguns dias e eu tentava identificar qualquer coisa na voz ou no que ela me dizia que denunciasse o trote. Quando Fernanda citou o jantar, que fora o grande incentivo para minha participação, duvidei mais ainda, imagina! Só acreditei mesmo quando ela leu a frase, a minha frase que, naquele momento lembrei vagamente de ter escrito.

Além do exagero de louças, panelas em aço inox, taças de cristal e até uma cafeteira expresso que nem estava no programa, o prêmio consistia também em um jantar onde Olivier Anquier seria o cozinheiro e Seu Jorge cantaria para mim e mais 12 convidados. Eu ainda fiquei naquela de “me belisca” por alguns dias, até que, de tanto Fernanda ligar de São Paulo pra tratar da data, do cardápio e de outros detalhes, a ficha caiu.

E quando a ficha caiu,  lembrei da funcionária do supermercado, que eu, brincando e nem em sonho pensando em ganhar, havia prometido convidar para o jantar. Como era mesmo o nome dela? Branco total. Ainda desconfiada do grande prêmio e sem querer contar com o ovo na cloaca da galinha, não quis dizer que era a ganhadora da promoção e assim facilitar a identificação da moça no supermercado. Fui até lá duas vezes e perguntei como poderia localizar uma funcionária assim e assado, vestida com um uniforme preto. Não conseguiram me ajudar, ainda que tivessem a maior boa vontade deste mundo, a não ser que colocassem todas as funcionárias de todos os turnos em fila indiana para identificação, porque o uniforme da maioria é preto. Fiquei tentando lembrar o nome da funcionária, em vão. Mas deixei seu lugar mentalmente reservado na minha lista de convidados.

Minha sorte – e desconfio que da moça até então não identificada também – é que uma das gerentes,  M., que documentou a entrega dos prêmios na minha casa, estava ao lado da moça no dia em que eu coloquei o cupom na urna e lembrava da brincadeira da promessa que eu fizera à A., a funcionária, que agora já poderia ser minha convidada de fato. A. é uma moça muito querida e simpática. Trabalha na padaria de uma das lojas, desconfio que tenha uns 23 ou 24 anos e é mãe de uma criança pequena ainda, que a levou a sair um pouco mais cedo do nosso jantar. Mas tenho certeza de que ela aproveitou cada minuto que pôde estar conosco, com a mesma alegria que senti por tê-la entre nós.

Depois de confirmar a presença dos meus convidados, que eu teria que dar nome, RG, detalhar possíveis alergias alimentares, doenças etc., era só desfrutar do jantar, que foi em uma noite agradabilíssima em um recanto do Garcia e Rodrigues, onde Olivier cozinhou auxiliado por M., minha filha e R., o comsorte e Seu Jorge cantou, a contragosto, auxiliado por mim. Já que o jantar era meu, os convidados eram meus, a noite era minha e sabe lá Deus quando eu vou conseguir participar e escrever uma frase boazinha dessas em outra promoção, desafinei algumas notas em “Chega de Saudade”. Não sei se Seu Jorge parou de cantar quando eu comecei porque não gosta de acompanhamentos ou se os acompanhamentos não gostam de Seu Jorge (um mistério insolúvel de Tostines), mas cantei, cantei, jamais cantei tão lindo assim! Ah, Cauby, desafinei sozinha (mas não bisei) quase a música toda e me senti celebridade por uma noite.

Olivier Anquier, além de ser ainda mais charmoso pessoalmente, é de uma simpatia contagiante. Parecia feliz por estar ali, onde também levou a filha e tratou a todos como velhos conhecidos. Trocamos dedicatórias em nossos respectivos livros, falamos de receitas, posamos para fotos e combinamos nas camisas listradas. A dedicatória que recebi de Olivier, dizia assim: “Claudia, parabéns para você! A escolha dos seus amigos para participar do seu jantar foi sensacional”. Eu concordo plenamente, mas nosso chef não é um gentleman? O cardápio, elaborado e preparado por Olivier foi servido assim:

Entrada
Queijo Camembert Empanado com Salada de Temperos

1 queijo camembert pequeno por pessoa
1 ovo batido
8 colheres de sopa de farinha de rosca
3 colheres de sopa de manteiga
Passe o queijo no ovo batido e depois na farinha de rosca. Em uma frigideira, derreta a manteiga e frite o queijo empanado até dourar. Sirva acompanhado pela salada de temperos.

Para a Salada:
1 maço de hortelã
1 maço de salsa crespa
1 maço de salsa comum
1 maço de manjericão graúdo
1 maço de manjericão roxo
1 maço de coentro.
Retire e lave todos as folhas, misture e tempere com sal e azeite de oliva.

Prato Principal
Filé com Alho e Sálvia Acompanhado de Batatas Assadas com Tomilho

Quando chegamos ao local do jantar, o filé e as batatas já estavam preparados, esperando para ir ao forno. Olivier nos contou que chamou sua filha para temperá-lo com sal, pimenta, tomilho fresco e nacos de alho colocados nos talhos feitos na carne. As batatas estavam elegantemente dispostas em assadeiras, cozidas e em formato de meia-lua (cortadas em 4, em cruz), salpicadas com sal, pimenta e tomilho, regadas com azeite de oliva. Foram levadas ao forno para dourar.

Sobremesa:
Petit Gateau

Obs: eu preparo a receita de Petit Gateau do Olivier há muito, sem imaginar que um dia iria provar pelas mãos do próprio. Gostamos tanto dessa receita em especial, que compramos a máquina para fazer Petit Gateau. Olivier fez nas forminhas, e não poderia ser diferente, considerando o número de pessoas.
120 gramas de chocolate amargo picado
100 gramas de manteiga
2 ovos inteiros
2 gemas
¼ de xícara de chá de açúcar
2 colheres de sopa de farinha de trigo
Bata os ovos, as gemas e o açúcar até que fique um creme esbranquiçado. Em uma panela em banho-maria, derreta o chocolate, junte a manteiga e mexa até que fique homogêneo e brilhante. Despeje o chocolate no creme aos poucos e mexa até que fique bem incorporado. Acrescente a farinha de trigo delicadamente (não use a batedeira). Unte as forminhas com manteiga e polvilhe com farinha de trigo. Asse em forno pré-aquecido por 5 minutos. Sirva com sorvete de creme.

Já ia esquecendo da frase  que me proporcionou esse jantar – e que foi mais alegre ainda porque, além do pessoal do Pão de Acúcar, todos muito simpáticos e atenciosíssimos e do meu pequeno núcleo familiar, também estavam lá 12 dos meus amigos mais queridos.

“Brindar pelos amores, humores e sabores que tornam a vida mais feliz!”

E, de fato, nessa noite, eu brindei com cada palavra da minha frase.